20 de maio 2015

Indígenas Kaingang e Guarani se reúnem com Serviço Florestal Brasileiro para discutir o inventário florestal da TI Mangueirinha (PR)

Equipe do Serviço Florestal Brasileiro recebe as lideranças da TI Mangueirinha, técnicos do Projeto GATI e Funai
Equipe do Serviço Florestal Brasileiro recebe as lideranças da TI Mangueirinha, técnicos do Projeto GATI e Funai

Nos dias 8 e 9 de maio, lideranças indígenas Kaingang e Guarani da Terra Indígena (TI) Mangueirinha (PR), área de referência do Projeto GATI, com representante da CR Funai Interior Sul, estiveram em Brasília-DF para uma agenda de visitas e reuniões com o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). A agenda faz parte de uma articulação entre o Projeto GATI, Funai e lideranças da TI com o SFB, que, com apoio da Organização das Nações Unidades para Agricultura e Alimentação (FAO) e o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF), realiza o Inventário Florestal Nacional (IFN). O encontro teve como objetivo principal discutir a possibilidade de se realizar o primeiro inventário florestal em terra indígena utilizando a metodologia estabelecida para o IFN.

Vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pela gestão de florestas públicas federais, o SFB vem realizando desde 2013, o IFN, que visa coletar informações para subsidiar políticas de gestão dos recursos florestais brasileiros (saiba mais). O inventário já percorreu várias regiões, levantando informações sobre o estado, saúde e vitalidade das florestas brasileiras, como também sobre estoques de biomassa e carbono, além de dados socioambientais das populações que vivem no entorno dessas áreas.

A TI Mangueirinha, que tem 16.375 hectares, se localiza no centro sul do estado do Paraná e é habitada tradicionalmente pelos povos Kaingang e Guarani. A TI possui uma grande área de cobertura florestal nativa e preservada, sendo um dos principais remanescentes de floresta de araucária do Brasil. De acordo com o coordenador técnico do Projeto GATI, Robert Miller, realizar um inventário florestal em Mangueirinha trará importantes informações para subsidiar a gestão ambiental e territorial desta TI, aliada à conservação da biodiversidade, visto que além de proporcionar serviços ecossistêmicos, a floresta contribui para geração de renda por meio da produção extrativista de erva-mate, pinhão e nó-de-pinho entre outros. 

Conhecendo o herbário do IBGE

Como parte do processo de inventário, o SFB realiza coleta de amostras de folhas, flores e frutos para identificação botânica, as quais são armazenadas em herbários de referencia nacional, destinados exclusivamente à pesquisa científica. Para entender o processo de coleta e conservação dessas amostras, os indígenas visitaram o herbário da Reserva Ecológica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), localizado na área periurbana de Brasília. No local foram recebidos pela curadora Marina Fonseca, que explicou como se dá o recebimento, armazenamento e catalogação das amostras que ficam na coleção no herbário. Na ocasião foi esclarecido que, conforme a legislação brasileira, a coleta de amostras para identificação botânica no âmbito de inventários não representa o acesso ao patrimônio genético e conhecimentos tradicionais associados. 


Conhecendo catalogação de amostras no herbário do IBGE.

Conhecendo a metodologia do Inventário Florestal Nacional

Na sede do SFB, os indígenas conheceram os laboratórios vinculados, tais como o Laboratório de Produtos Florestais, Laboratório de Engenharia e Produtos da Madeira e o Laboratório de Biomassa da Madeira, onde são realizados atividades como identificação de amostras de madeira, desenho e testes de resistência de estruturas de madeira e pesquisas com materiais desenvolvidos a partir de sobras de madeira, bambus e resíduos agrícolas. Em seguida, foram recebidos por Joberto Veloso, Diretor de Pesquisa e Informações Florestais do SFB, que apresentou o histórico, objetivos e metodologia do Inventário Florestal Nacional. De acordo com o diretor, o método possui padronização nacional, com a coleta de informações biofísicas, socioambientais e de paisagem em pontos amostrais situadas em uma grade sistemática de 20 km x 20 km, com a possibilidade de adequações às peculiaridades de cada bioma. Por meio desse método o IFN é um importante instrumento de monitoramento de quantidade e qualidade das florestas no país, e para Veloso, os dados levantados no inventário também ajudam na valorização e uso das florestas por aquelas populações que vivem delas.

No laboratório de biomassa, indígenas conhecem amostras de biocombustível obtidos a partir da prensagem de resíduos de madeira.

Para o cacique Kaingang Milton Katan Alves, o inventário vem somar forças na importância da conservação florestal na TI Mangueirinha, contribuindo ainda com a formação de jovens e crianças nas escolas indígenas da região, para que essas futuras gerações conheçam e valorizem esse patrimônio que é de todos. O cacique acrescentou que de posse de informações qualificadas os indígenas poderão pensar estratégias de incrementar o uso sustentável da floresta que os mesmos já praticam, aliando essas atividades à conservação e manutenção desse bem que também é meio de vida para essa população. Como encaminhamento final, os presentes estabeleceram uma agenda de trabalho para os próximos passos para a realização do inventário, que será acompanhado e apoiado pela equipe de monitores territoriais indígenas treinados pela Funai.